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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Clipping

Caderno de notas


Publicado em 2012-07-03

1) Cada um à sua maneira, Partido Comunista e Bloco de Esquerda sonham ver repetida a situação grega. Não que anseiem por uma deterioração, ainda maior, das condições de vida dos portugueses. O que os faz salivar é a hipótese de o Partido Socialista seguir o caminho do PASOK, reduzido a uma expressão eleitoral marginal. A entrevista de Francisco Louçã ao Expresso é, a esse propósito, elucidativa. Lá, como cá, o PS está ligado à negociação do programa de ajustamento, tendo muita dificuldade em se libertar dessa herança. A táctica passa por sublinhar a co-responsabilidade dos socialistas com as políticas que estão a ser seguidas. O pior que lhes poderia acontecer seria, por isso, que o governo acentuasse a política de austeridade, fornecendo ao PS o pretexto para saltar do barco e evitar o desgaste. Na perspectiva do PC e do Bloco, quanto mais tempo a actual ambiguidade se mantiver, melhor.

2)Fazendo jus à sua proverbial capacidade de organização o PC, em conjunto com a CGTP, tem vindo a organizar, por onde passam membros do governo e, até, o presidente da República, pequenas manifestações "espontâneas" de protesto, sonoras e aguerridas o suficiente para justificarem a cobertura de repórteres viciados no sensacionalismo acrítico, incapazes de fazer uma pergunta com sentido a quem quer que seja e, muito menos, aos putativos representantes do povo sofredor. Trata-se de operações mediáticas que visam criar a sensação do alastrar, por todo o país, de um sentimento de revolta justificado pelos sacrifícios que têm vindo a ser impostos aos trabalhadores. Nada que não se tivesse já visto, dir-se-á. Talvez não seja exactamente assim. Se o que se passou na Covilhã não tiver sido uma fuga acidental ao guião pré-estabelecido, poderemos estar perante uma escalada nas formas de contestação, envolvendo o insulto e ameaçando a violência. Não é típico e, no entanto, talvez não seja de estranhar. Confrontado com o acontecido, Arménio Carlos não teve vergonha de recorrer a uma argumentação capciosa, sobre os excessos do governo, para justificar o sucedido. Estejamos atentos aos próximos episódios para perceber se, como muitos anteciparam, a mudança de secretário-geral na CGTP correspondeu a uma radicalização não apenas no discurso, como na prática, reflectindo a vitória da linha dura e uma inflexão no posicionamento dos comunistas. Um caminho perigoso a que a necessidade de ganhar a "pole position" ao BE na luta pelos eventuais despojos do PS talvez não seja estranha.

3)À reforma da justiça, quaisquer que sejam os méritos e pecados próprios, aplica-se a metáfora da gota de água que faz transbordar o copo. Depois do fecho de escolas, delegações das finanças, postos da GNR, centros de saúde, e sei lá o que mais, haveria de chegar um momento em que as populações do interior que ainda por lá se mantêm dissessem "o que é de mais, é moléstia". Aconteceu quando se decidiu encerrar o tribunal. Era lógico. Não sou eu que o digo, é Jorge Moreira da Silva, o número dois do PSD. Diz ele que aquele tipo de decisões devia obedecer a uma perspectiva integrada, de modo a evitar que se acumulem encerramentos nos mesmos concelhos, a maioria dos quais no interior do país. Pode parecer óbvio e, contudo, marca uma ruptura com a política da decisão ministério a ministério, sem qualquer coordenação horizontal, de que o desenvolvimento regional tem sido vítima. Moreira da Silva não é membro do governo. No Executivo, o pelouro parece ser de Miguel Relvas. Se isto não é um atestado de incompetência ......

4)A novela "Metro do Porto" continua. Afinal, o modelo de organização conjunta com a STCP não é o que se dizia e não se percebe por que demorou tanto tempo a decidir. Mesmo com todos estes atrasos, o governo não foi capaz de nomear a equipa de gestão. Rui Rio desculpou o ministro da Economia, ingénuo e vítima de politiquices. Santos Pereia apressou-se a desmenti-lo: não havia divergências, nem pressões, no governo. Nesse caso, foi mesmo só falta de consideração pela Junta Metropolitana do Porto e inépcia. Mais valia ter estado calado.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

 
MARIA JOSÉ – Crónica Semanal do Público de Paulo Rangel


1. Foi algures nos idos de 1998, em vésperas do primeiro referendo sobre o aborto, que conheci pessoalmente a Maria José – Zezinha para os mais próximos, Maria José Nogueira Pinto para o público em geral. Para mim, é a Maria José ou não a tivesse chamado sempre e invariavelmente assim – um modo de chamar que anunciava e denunciava a intimidade distante e a distância íntima que acabámos por cultivar nos treze anos que haviam de seguir-se.

Nessa tarde de sol e de primavera, acompanhados pelos amigos comuns que ali nos apresentaram, almoçámos nas margens do Douro, mesmo junto à Ponte da Arrábida. E daí seguimos para uma das sessões preparatórias da campanha do “não”, em que supostamente ambos deveríamos falar. Digo supostamente, porque, depois de a Maria José ter falado, já quase nada ou mesmo nada havia para dizer. Raras vezes tinha ouvido – e raras vezes ouvi depois – uma intervenção que me tivesse impressionado tanto. Não eram apenas as palavras, não eram somente as ideias, não eram ainda as acções e os programas. Era a Maria José: ela estava no discurso. O discurso era, também e afinal, a Maria José.

2. A intervenção dessa tarde – entre discurso e debate –, muito para lá do tema e da ocasião, revelava e desvendava a sua autora. A apresentação de abertura, nem curta nem longa, carregada de filosofia, de valores e de utopia, era paradoxalmente uma verdadeira lição de pragmatismo, de conhecimento de realidade, de guias e critérios de acção. E uma vez aberto o debate, acorreu o turbilhão das perguntas de gente inquieta e de gente muito diferente, que, militando pelo dito “não”, tinha mundividências divergentes e contraditórias. Esse teste da audiência, em que o humano se jogou por inteiro, foi ainda mais avassalador. Maria José, que era uma executiva e gestora de tomo, com vasta experiência em grandes unidades administrativas, cultora de uma poderosa racionalidade, ao mesmo tempo que lançava, com zelo, os dados estatísticos, económicos e sociológicos discorria, com deleite e com cuidado, sobre filosofia, arte e teologia. Nenhum problema, por mais técnico que fosse, escapava ao seu olhar humano, profundamente humano, demasiado humano, daquele humano que conhece e afecta a elegância dos salões e o relento dos que dormem a céu aberto. Não havia nela – e não houve naquela tarde, que, mais do que uma tarde, me parece ainda hoje uma manhã – número que não se volvesse em pessoa. Ela gostava de cuidar e cuidar, para ela, era fazer dos números pessoas.

Se me lembro bem, terá sido o primeiro acto da minha primeira campanha “política”. Para quem, como eu, duvidava e continua a duvidar da justeza das minhas posições, aquilo não fora, apesar da inquebrantável convicção da Maria José, nem um baptismo de água nem um baptismo de fogo. Aquela “tarde-manhã” fora um subtil derrame de bálsamo.

3. Até então conhecia a Maria José enquanto figura pública, como qualquer de nós, fosse da sua passagem pela cultura, fosse da sua especialização e experiência nas áreas sociais, fosse da sua residência nas bancadas do parlamento. Daí em diante, fomo-nos cruzando nas mais várias iniciativas, fomo-nos achando numa ou noutra ocasião social, fomos criando uma empatia crescente. E, entretanto, também um pouco por circunstâncias fortuitas e nem sequer coincidentes, fui encontrando aqui e ali o Jaime Nogueira Pinto. Encontros, mais duráveis ou mais fugazes, que manifestamente iam apertando os nós e os laços, os nós e os laços de que fala o Alçada, o Alçada de todas adolescências tardias. Mas o impulso decisivo – o salto para a amizade, daquelas de quem se lê e de quem se escuta – veio dos lados da Maria João Avillez. A Maria João, com a supina arte de ligar gente, ligou-nos a um programa de rádio. E na rádio, o único meio de comunicação em que a exposição da intimidade não se corrompe em pornografia, o convívio semanal fez o resto – o resto que, viemos todos a descobri-lo, já tarde, nunca tinha faltado.

4. A Maria José – desses anos em que estive distantemente próximo – testemunhou-nos a mais importante e talvez a mais carecida qualidade dos políticos e, já agora, dos humanos: a independência de espírito. Assumia as suas convicções fundas e radicadas, mas nunca as apresentou com sectarismo, facciosismo ou fundamentalismo. Colocava-se firme do seu lado da barricada, mas isso nunca a impediu de apoiar um presumível adversário, se o tivesse por competente e credível. Não tinha medo do confronto e da palavra forte, mas poucos terão feito tantas pontes e fomentado tanto o diálogo com ideologias e crenças que pareciam da outra margem. Era detentora de uma visão ideológica global, mas não abdicava de entrar em projectos concretos de sinal diverso e de neles trabalhar em equipa para realizar o bem comum. Vivia a política com paixão, mas nunca deixou de perceber o carácter largamente instrumental dos partidos. Possuía uma grelha teórica invulgar, mas analisava os factos com um detalhe técnico e um conhecimento da natureza humana próprios de uma “self-made-woman”.

5. Nestes tempos conturbados, vejo os debates na televisão e falta-me a sua análise. Falta-me o seu conselho, a sua mensagem telefónica, o seu email, o seu artigo de jornal. Mas em especial, depois deste ano de Europa, de que estou tão interiormente próximo, falta-me a opinião de uma portuguesa que via a sua essência como portuguesa. Com a Europa em apuros e as Áfricas, os Brasis e as Chinas a vibrar, precisávamos de ouvir a Maria José, para quem Portugal não era imperial mas imperativo. Faz-me falta e faz-nos falta, apenas um ano depois. Eu sei – porque nos disse pelo seu próprio punho, embora com palavras de “Outrem” – que nada lhe faltará. Mas a nós, a nós portugueses, falta-nos alguém. Desde 6 de Julho de 2011 que há alguém que nos falta.

SIM e NÃO

SIM. Mario Monti. O que não tem conseguido fazer na Itália, logrou fazer no último Conselho Europeu. Visão estratégica, com realismo e sentido da oportunidade.

NÃO. Governo e transportes no Porto. O porto de Leixões, os STCP, o Metro e até o futuro do aeroporto (via privatização da ANA) são assuntos sempre adiados. O Governo dá sinais de “desnorte”: esperava-se mais e melhor.











quarta-feira, 27 de junho de 2012

Conferência "Centros Históricos - Património Edificado vs Património Vivido?- uma partilha de experiências" - 7 Julho - Palácio da Bolsa


A Associação Infante D. Henrique – Associação para o Desenvolvimento do Centro Histórico do Porto está a organizar a conferência “Centros Históricos – Património Edificado vs Património Vivido?- uma partilha de experiências”, a decorrer no próximo dia 7 de Julho de 2012, pelas 14:15 no Auditório do Palácio da Bolsa. Esta constituirá o segundo momento do ciclo de conferências “Refletir para Agir” a decorrer ao longo de 2012.

No primeiro momento do ciclo Refletir para Agir, debatemos a(s) identidade(s) do Centro Histórico do Porto, percebendo que nela assumem um lugar de destaque as pessoas que o povoam. No entanto, foi igualmente reconhecido, que a valorização do património humano tem vindo a ser comprometida com fenómenos de especulação imobiliária cada vez mais presentes no território.

Perante este contexto, temos o mote para debater qual é afinal o lugar das gentes na alma dos territórios históricos, trazendo ao Porto a experiência de outras cidades.

Os nossos objectivos com esta conferência passam assim por:

• Debater o fenómeno da gentrificação e seus impactos nos Centros Históricos das cidades.
• Promover a partilha de experiências e boas práticas de dois centros históricos (Barcelona e Guimarães) ao nível da gestão conciliada do seu património histórico e humano.
• Conhecer os objectivos da gestão do Centro Histórico do Porto no domínio do seu património humano.

A entrada é livre, com inscrição prévia até 3 de Julho de 2012 para geral.aidh@gmail.com ou 92 6664181.

Abaixo segue programa detalhado e a ficha de inscrição.
Contamos com a vossa indispensável presença e apoio na divulgação.

Com os melhores cumprimentos,

Pe Agostinho Jardim Moreira

Presidente de Direcção




quarta-feira, 4 de abril de 2012

Conferência "Identidade(s) do Centro Histórico do Porto" - 21 Abril - 14h15 - Palácio da Bolsa

A Associação Infante D. Henrique – Associação para o Desenvolvimento do Centro Histórico do Porto está a organizar a conferência “Identidade(s) do Centro Histórico do Porto”, a decorrer no próximo dia 21 de Abril de 2011, pelas 14:15 no Auditório do Palácio da Bolsa. Esta constituirá o primeiro momento do ciclo de conferências “Reflectir para Agir” a decorrer ao longo de 2012.

Porquê “Identidade(s) do Centro Histórico do Porto”?

Porque inovar um lugar parte sempre do conhecimento da(s) identidades que o caracterizam, lhe dão corpo e delimitam.

Pretendemos assim com esta conferência (re)conhecer a(s) identidade(s) do Centro Histórico do Porto, tentando entender o que faz dele um território coeso mas igualmente um lugar de enorme diversidade. Conhecer a forma como ele tem vindo a ser representado e vivido ao longo dos tempos, encontrando nesse percurso traços que nos permitam identificar o(s) significado(s) de pertença a este lugar.

Num tempo em que a emergência de uma cidadania activa é um imperativo, propomos conhecer o cidadão do Centro Histórico do Porto, seja o cidadão que habita desde há muito este lugar, como aquele que por ele se deixa habitar, encontrando neste importante território da cidade oportunidades de futuro.

Pretendemos ainda perceber que linhas descrevem o Centro Histórico do Porto para lá dos seus contornos administrativos, linhas essas que deverão estar presentes na definição do papel que este lugar pode desempenhar no presente e no futuro da Cidade e do país.

A entrada é livre, com inscrição prévia até 16 de Abril de 2012 para geral@aidh.com ou 92 6664181.

Em anexo, envia-se o programa detalhado e a ficha de inscrição.